Carta de Resposta à Encíclica “Inquérito sobre os Valores Humanos”
A degeneração cultural que vivemos neste período histórico surreal surge da exaltação do conceito racionalista, exasperado na sua exaltação da razão. Todo setor cultural é minado e comprometido por essa idealização da racionalidade construtivista, segundo a qual a razão é infalível, um legado cultural daquela deriva violenta e justicialista da Revolução Francesa (ver jacobinismo), que substituiu o deus religioso pelo deus da razão, resvalando para o abismo utópico segundo o qual a razão é infalível, negando assim a verdadeira natureza da própria razão, que se baseia na consciência de que nada é infalível.
Este conceito de infalibilidade atribuído à razão, levou a uma progressiva análise cega dos fenômenos sociais e, portanto, humanos, a ponto de adaptar suas teorias racionalistas à realidade, violando a própria natureza e seus fenômenos evolutivos, levando à maior aberração filosófica e cultural do idealismo, de onde surgiriam depois as maiores tragédias do século XX, como o marxismo, o socialismo real, o nazismo e todas aquelas doutrinas políticas baseadas na infalibilidade da razão em detrimento da ordem espontânea, isto é, daquela fonte primária da evolução e do progresso social e econômico.
É hoje evidente o quanto essa deriva coletivista se esconde por trás da concepção racionalista construtivista, concepção que mortifica o homem no seu individualismo e, portanto, na sua capacidade reflexiva e na sua capacidade de libertar-se do pensamento único.
De fato, foi justamente no despertar secular do pensamento especulativo, fundado na observação e na experimentação contínuas e na consciência de que não há verdade imutável, mas que toda descoberta só é válida se for superada por outra, como aconteceu com o Humanismo, que o homem surgiu do obscurantismo do poder temporal da Igreja.
Foi justamente com o nascimento do Humanismo que o direito renasceu, retomando o “Corpus Iuris Civilis Iustinianeum” (529-534), o que por sua vez permitiu o nascimento do Mercantilismo e criou uma societas nova, onde o nascimento dos próprios Municípios representou a ressurreição secular do Homo Faber do Humanismo, que foi o precursor do que mais tarde viria a ser o homem renascentista.
A história ensina que onde a sociedade é governada pela nobreza que quebra o jugo entre o absolutismo real e a plebe, essa mesma sociedade evolui, transformando a plebe em povo e o absolutismo real em governo dos melhores, por qualidades humanas meritocráticas e, portanto, humanísticas.
Somente quando o governo da sociedade for devolvido àqueles que sabem e que, portanto, iluminam com seu conhecimento, isto é, à nobreza espiritual da Humanitas — não é por acaso que o significado “nobre” deriva do latim “nobilis”, propriamente “conhecido”, derivado de “noscere”, isto é, “conhecer” — será restaurado o verdadeiro direito, isto é, o direito natural, o da tradição, derrotando a aberração da legislação invasiva, injusta e gigantesca, que em vez de refletir as necessidades da sociedade em constante evolução, partindo da tradição e de seus princípios cardeais, impõe seus paradigmas, muitas vezes anacrônicos, coletivistas e, portanto, iliberais.
Somente confiando-nos aos melhores, aos espíritos nobres, ou seja, aos guardiões da tradição, dos princípios humanísticos, entregaremos nossa história às gerações futuras.
O segredo está na própria etimologia do significado “tradição”, do latim “traditio”, que significa “entrega”, a entrega à posteridade dos valores e princípios humanísticos dos quais extrair ensinamentos para continuar a progredir e fazer a sociedade evoluir.
